sexta-feira, 20 de maio de 2011

Os textos perdidos - Se alguém souber dar um sorriso "natural", me ensine

      Assim que ela entrou no micro-onibus, o Rapaz tentou avistá-la. Já a tinha notado enquanto ela caminhava até a porta da frente, ruiva. Estava lá atrás, no final do ônibus, mas conseguiu avistar um olho dela enquanto subia a escada. Ela o olhou por entre as barras de ferro que a ocultavam do "exame completo" que ele faria depois, quando, após pagar e rodar a roleta, ela se colocou ao lado dele, as duas compras no chão.

O ônibus treme horrores enquanto sobe a primeira ladeira de paralelepípedos.
Ele pensa que subir pra casa de ônibus é sempre uma aventura.
Ela pensa somente em se segurar.
O motorista pensa que é preciso ganhar tempo e dirige mais barbeiro que de costume.
Os passageiros pensam nas suas coisas, nas suas vidas ou nas coisas e vidas dos outros.

      O Rapaz olha para a Moça. É bonita, está de calça jeans e camiseta. Cabelo ruivo - pintado mas e daí - um rabo de cavalo e olhos castanhos, magra e de pele clara. Provavelmente da altura dele, pensou.

Ela pensou em como o motorista dirigia como louco e se suas compras iam virar.

Ele reparou numa outra pessoa na frente e teve de se equilibrar na curva acentuada que o micro-ônibus fez enquanto ultrapassou o bonde.

"Esse cara tá louco"! pensou a Moça.

      O ônibus fez sua primeira parada, logo após ignorar o sinal de um passageiro que desceria no ponto anterior havia puxado. Saltou um casal de namorados, ou ficantes - sei lá -, que o rapaz jurava conhecer, mesmo sem reconhecer nenhum deles.
      A Moça viu um lugar vazio logo atrás e tentou juntar as bolsas com uma mão enquanto se segurava com a outra. Mas o motorista resolveu que era hora de arrancar de novo e ela quase caiu. O rapaz, então, vendo as bolsas no chão reolve ser gentil e junta as duas alças, levantando as bolsas. Ele olha pra ela, meio sem graça. Ela sorri, docemente. Contagiado, o Rapaz sorriu meio sem graça também, tentando "sorrir naturalmente". Ele continuou com as sacolas levantadas, mas ela não tentou segurar, deixando com ele, que resolveu por ambas no seu colo, em cima da sua maleta/mochila.

Ele a olhou de novo. Mais velha, alta. Teve vontade de perguntar o signo solar dela. "será que é escorpiana? em que podia ser..." chega a ensaiar algumas tentativas de assunto na sua cabeça e desiste.

      Após um ponto onde ninguém desceu, a Moça insinuou apertar o botão do sinal. Para a felicidade do rapaz, ele então pode deduzir que ela saltaria no mesmo ponto que ele. O ônibus faz uma curva barbeiríssima e, após se recuperar, a moça dá o sinal. O Rapaz então tentou entregar as sacolas e se enrolou um pouco, para o seu desprazer consigo mesmo, ao tentar levantar ao mesmo tempo.

Na última curva, a Moça praticamente cai e o rapaz acaba se sentindo impotente, vendo que nada poderia ter feito para ajudar ela. Ela comenta

O motorista tá doido, só pode.

O rapaz não conseguiu sequer pronunciar um reles "aham". Ficou em silêncio, doido pra concordar.

      O ônibus para e ambos saltam, ela na frente. Ele ainda a vê dando a volta no ônibus pela frente, ande um pouco, mas logo parando para observar a Moça e a trajetória que ela tomaria. Acompanhou ela até ver ela descer a ladeira logo a frente. Ele tomou nota, mentalmente, e andou os aproximadamente 30 passos até a sua casa. Ao abrir o portão, se perguntou se seu sorriso teria sido natural. Chegou a duas respostas

Não.

Não existe sorriso "natural".

Achou as duas válidas e entrou. Ao escrever um texto, pensou em começar com

Se alguém souber dar um sorriso "natural", me ensine.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Os textos perdidos - Cheiros

      Dizem que quando chegaram no Brasil, os portugueses se maravilharam com as belezas naturais, com as belezas nativo-americanas, com as cores, a temperatura e com os cheiros.
      O cheiro de uma fruta, o cheiro de uma flor, o cheiro de um perfuma, masculino ou feminino, que os europeus tão bem confeccionam e tão sabiamente usam para esconder seu fedor cheiro natural. O cheiro de uma loção, de um sabonete, de um shampoo. O cheiro de alguém cheiros@, que passa, nos dominando com uma vontade irresistível de acompanhar o cheiro e pessoa em questão.

Os cheiros. Eles me remetem a lugares, a tempos de vida passados, a músicas, sentimentos, pessoas.

      Apesar dos rotineiros enguiços olfativos, hoje no ônibus senti um cheiro familiar. Era um cheiro muito antigo, não sabia bem de onde. Pus os funcionários do Departamento de Memória (DdM) para funcionar e as informações foram surgindo devagar quase parando. Funcionalismo público é assim mesmo. Mas apareceram algumas coisas interessantes:

1o. - O cheiro vinha da mulher que estava ao meu lado
2o. - É um shampoo

      Lentamente as informações foram se montando. Aquele cheiro era o shampoo que uma das minhas muitas paixões juvenis usava. Não consigui descobrir nem quem era a paixão e nem quando ocorreu. Sabia apenas que era do elséve para cabelos longos e que essa fragrância me faz viajar de volta a uma vida, um tempo que não existe mais.
      E assim fiquei, mergulhado naquele cheiro de outros tempos, até chegar no meu ponto, quando voltei ao presente, puxei a cigarra e saí, minha rotina de todos os dias, como se nada tivesse acontecido.