sexta-feira, 20 de maio de 2011

Os textos perdidos - Se alguém souber dar um sorriso "natural", me ensine

      Assim que ela entrou no micro-onibus, o Rapaz tentou avistá-la. Já a tinha notado enquanto ela caminhava até a porta da frente, ruiva. Estava lá atrás, no final do ônibus, mas conseguiu avistar um olho dela enquanto subia a escada. Ela o olhou por entre as barras de ferro que a ocultavam do "exame completo" que ele faria depois, quando, após pagar e rodar a roleta, ela se colocou ao lado dele, as duas compras no chão.

O ônibus treme horrores enquanto sobe a primeira ladeira de paralelepípedos.
Ele pensa que subir pra casa de ônibus é sempre uma aventura.
Ela pensa somente em se segurar.
O motorista pensa que é preciso ganhar tempo e dirige mais barbeiro que de costume.
Os passageiros pensam nas suas coisas, nas suas vidas ou nas coisas e vidas dos outros.

      O Rapaz olha para a Moça. É bonita, está de calça jeans e camiseta. Cabelo ruivo - pintado mas e daí - um rabo de cavalo e olhos castanhos, magra e de pele clara. Provavelmente da altura dele, pensou.

Ela pensou em como o motorista dirigia como louco e se suas compras iam virar.

Ele reparou numa outra pessoa na frente e teve de se equilibrar na curva acentuada que o micro-ônibus fez enquanto ultrapassou o bonde.

"Esse cara tá louco"! pensou a Moça.

      O ônibus fez sua primeira parada, logo após ignorar o sinal de um passageiro que desceria no ponto anterior havia puxado. Saltou um casal de namorados, ou ficantes - sei lá -, que o rapaz jurava conhecer, mesmo sem reconhecer nenhum deles.
      A Moça viu um lugar vazio logo atrás e tentou juntar as bolsas com uma mão enquanto se segurava com a outra. Mas o motorista resolveu que era hora de arrancar de novo e ela quase caiu. O rapaz, então, vendo as bolsas no chão reolve ser gentil e junta as duas alças, levantando as bolsas. Ele olha pra ela, meio sem graça. Ela sorri, docemente. Contagiado, o Rapaz sorriu meio sem graça também, tentando "sorrir naturalmente". Ele continuou com as sacolas levantadas, mas ela não tentou segurar, deixando com ele, que resolveu por ambas no seu colo, em cima da sua maleta/mochila.

Ele a olhou de novo. Mais velha, alta. Teve vontade de perguntar o signo solar dela. "será que é escorpiana? em que podia ser..." chega a ensaiar algumas tentativas de assunto na sua cabeça e desiste.

      Após um ponto onde ninguém desceu, a Moça insinuou apertar o botão do sinal. Para a felicidade do rapaz, ele então pode deduzir que ela saltaria no mesmo ponto que ele. O ônibus faz uma curva barbeiríssima e, após se recuperar, a moça dá o sinal. O Rapaz então tentou entregar as sacolas e se enrolou um pouco, para o seu desprazer consigo mesmo, ao tentar levantar ao mesmo tempo.

Na última curva, a Moça praticamente cai e o rapaz acaba se sentindo impotente, vendo que nada poderia ter feito para ajudar ela. Ela comenta

O motorista tá doido, só pode.

O rapaz não conseguiu sequer pronunciar um reles "aham". Ficou em silêncio, doido pra concordar.

      O ônibus para e ambos saltam, ela na frente. Ele ainda a vê dando a volta no ônibus pela frente, ande um pouco, mas logo parando para observar a Moça e a trajetória que ela tomaria. Acompanhou ela até ver ela descer a ladeira logo a frente. Ele tomou nota, mentalmente, e andou os aproximadamente 30 passos até a sua casa. Ao abrir o portão, se perguntou se seu sorriso teria sido natural. Chegou a duas respostas

Não.

Não existe sorriso "natural".

Achou as duas válidas e entrou. Ao escrever um texto, pensou em começar com

Se alguém souber dar um sorriso "natural", me ensine.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Os textos perdidos - Cheiros

      Dizem que quando chegaram no Brasil, os portugueses se maravilharam com as belezas naturais, com as belezas nativo-americanas, com as cores, a temperatura e com os cheiros.
      O cheiro de uma fruta, o cheiro de uma flor, o cheiro de um perfuma, masculino ou feminino, que os europeus tão bem confeccionam e tão sabiamente usam para esconder seu fedor cheiro natural. O cheiro de uma loção, de um sabonete, de um shampoo. O cheiro de alguém cheiros@, que passa, nos dominando com uma vontade irresistível de acompanhar o cheiro e pessoa em questão.

Os cheiros. Eles me remetem a lugares, a tempos de vida passados, a músicas, sentimentos, pessoas.

      Apesar dos rotineiros enguiços olfativos, hoje no ônibus senti um cheiro familiar. Era um cheiro muito antigo, não sabia bem de onde. Pus os funcionários do Departamento de Memória (DdM) para funcionar e as informações foram surgindo devagar quase parando. Funcionalismo público é assim mesmo. Mas apareceram algumas coisas interessantes:

1o. - O cheiro vinha da mulher que estava ao meu lado
2o. - É um shampoo

      Lentamente as informações foram se montando. Aquele cheiro era o shampoo que uma das minhas muitas paixões juvenis usava. Não consigui descobrir nem quem era a paixão e nem quando ocorreu. Sabia apenas que era do elséve para cabelos longos e que essa fragrância me faz viajar de volta a uma vida, um tempo que não existe mais.
      E assim fiquei, mergulhado naquele cheiro de outros tempos, até chegar no meu ponto, quando voltei ao presente, puxei a cigarra e saí, minha rotina de todos os dias, como se nada tivesse acontecido.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Os primeiros textos recuperados - Quasiventuras de um rapaz de 19 anos

Texto 3 (último) - O beijo

      Quando cheguei no ponto de ônibus, fiz logo o reconhecimento da área; Apesarde de ser noite tinha basante gente, ao menos para aquele ponto em questão. As primeiras olhadas não revelaram nada de mais, algumas pessoas feias... Foi quando a vi.

      Começou pelo cabelo, que me enlaçava com seus mil caracóis, passando pela nuca, pela camisa - exatamente o tipo que eu gostava - de malha sem mangas, seguia pelos ombros e braços, numa mescla de pele morena, sardas e pintas. Uma combinação arrematadora. Desci seguindo o short curto, as pernas, culminando na dupla que sempre me atraiu: meia curtinha e tênis.

      Enquanto eu já babava por ela, a Moça olhava pro outro lado, esperando seu ônibus chegar. Tentei adivinhar para onde iria, observando os que ela deixava passar. Tentei também enxergar o seu rosto, ao menos um perfil que fosse. Nada. Ela olhava apenas para a rua ao longe, me negando ver seu rosto, na espera da condução.

      Em vão, esperei o momento em que ela se distraísse e me revelasse seu rosto. Vários ônibus que me serviam passaram, pararam, pegaram e deixaram passageiros; eu não estava nem aí para eles, não enxergava nem as pessoas nem o ponto de ônibus, só enxergava a Moça do cabelo encaracolado.

      Ela se sentou no banco do ponto, mas mesmo assim não mexeu a cabeça. Aquilo continuava uma incognita, um mistério que não nos deixa dormir. Como um livro de suspense eu tentava desvendá-la; imaginei todos os rostos possíveis para ela. Bonita, velha, nova, conservada, cansada, enrugada, espinhenta; olhos azuis, olhos castanhos, verdes, mel, pretos; sombrancelhas grossas, finas, juntas, feitas, mal-feitas; sem bochecha, sem graça, sem sal, sem queixo, sem defeito...

Chega!

Não aguentei mais me atormentar com aquilo. Fui decidido até onde ela estava sentada. Não ficaria sem saber como era seu rosto por mais tempo algum. Mas na minha decisão repentina, eu não tinha pensado em nada para dizer a ela e enquanto dava os passos necessários para me aproximar, nada veio a minha cabeça.

Dane-se. Eu me viro.

      Parei na frente dela e fiquei a olhar ela subir a cabeça até me olhar nos olhos. Deve ter levado um segundo, mas senti varios minutos passando. E foi pior que eu imaginei. Ela não era bonita, não mesmo. O que ela tinha era uma beleza diferente, mais que exótica; era absolutamente linda, uma beleza que só quem é mortal pode ter, que causa inveja a deusas, gregas, romanas e egípcias. Que me fez esquecer de onde eu estava. Me senti em qualquer lugar, em lugar nenhum, no limbo, no olimpo, campos elísios, Saturno. Culpado, eu cometia o crime de olhar uma Deusa nos olhos, olhos de ressaca.

Nada veio a minha cabeça, nenhum pensamento, nenhuma palavra, rien, rien de rien. Virei. Vi um ônibus qualquer e fiz sinal. Ele parou e fui entrando até me puxarem pelo ombro.

Espera.

Subitamente me perdi. Um cientista poeta diria, talvez, que eu estava mergulhado num mar de ondas alfa. Ainda não sei bem o que passou, só recuperei a consciência algum tempo depois, com um leve gosto de néctar na boca e nos meus lábios. Mais tarde deduzi que ela tinha me dado um beijo e que isso tinha causado essa sensação. Quanto tempo fiquei em extase é incerto pra mim. Dias, semanas, meio segundo, 2 anos. O ônibus continuava ali.

Pronto, agora você pode ir.

E voltou pra mesma posição de logo antes, sentada, sem nem mostrar seu perfil.

      Ainda grogue, subi naquele onibus errado, que fechou a porta e arrancou. Quando acordei, já não conseguia mais ver nem o ponto nem a moça. Paguei, passei, sentei, ignorando o trajeto estranho que eu fazia. Só me vinha na cabeça aquela moça deusa ninfa fada súcubo; queria apenas lembrar e reviver o beijo que ela me dera.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

- PAUSA - em comentário a - http://shotsperday.tumblr.com/post/4947637474/nao-me-peca

Não saber o que virá. Não sei mesmo, não sabia quando te procurei, não sei agora.
Mas uma coisa você me mostrou e até me exigiu, coragem para bater de frente com o que viesse.
bater de frente com o sangue e a lama que tinhamos nos nossos corpos quando nos separamos.
Com uma força renovada, nos demos banho, curamos nossas feridas. falamos um com o outro,
sem esperar que o outro entendesse. Na verdade, apenas rezando que entendesse.
Se tem algo que aprendi, é que não tenho controle. Os sentimentos existem, quer eu os queira ou não.
Botar no papel é minha forma de organizar, tentar transformar o caos em beleza,
tirar a dor da mágoa e da tristeza e transformar em sentimento exposto no papel
tirar a dor de mim.
ando me repetindo, mas nunca soube o que você pensaria ao ler minhas poesias
e por mais que não seja galanteador, elas não são para você apesar de serem sobre você
elas sou eu, são o meu sangue em letras. bonito ou feio.

Eu quero te ler, se quiser escrever. Não quero te arrancar de si mesma.
e se você me diz que o jogo é perigoso pra mim, digo que não me importo,
que corro o risco. Diz que é perigoso pra você, e nisso não faço parte.
Sobre nós, não temo. Me arrisco a dizer que nos sinto fortes,
que acho que turbulências virão, como sempre, mas que, agora,
aprendemos outras formas de lidar com elas.
maneiras nas quais tentamos ajudar o outro e não somente a nós mesmos.

Acho que uma das coisas que mais me impressionou em você também foi algo que você me exigiu na nossa primeira noite de retomada.
Coragem.
Volto a dizer que escrever é algo que deve vir de nós,
que não quero você se sentindo forçada a isso por insistência minha,
não importa o quanto eu adore ler o que escreves.
Mas se quiseres apoio pra escrever, eu me ofereço a ler.
Coragem é o que te ofereço.
Para dizer que estou ao seu lado não importa o que diz o papel.
Para ler e conversar depois.
Para sorrir e elogiar o desabafo que você me escreveu.

É forte, exatamente como achei que seria.

Te amo, muito,
Lucas

Os primeiros textos recuperados - Quasiventuras de um rapaz de 19 anos

Texto 2 - Lotação

      Estava eu na lotação, por sinal, lotada. Era um fim de noite comum, estava voltando de não sei onde e estava meio cansado. A pessoa ao meu lado era nada atraente; era um cara, mal encarado, feio e com uma cara nada intelectual. A única coisa boa dele foi que ele saltou logo. Já a mulher que entrou no seu lugar...
      Assim que ela entrou comecei a inspeção: rosto mais ou menos, cara meio de turista, camiseta sem graça, minissaia jeans e um par de coxas que não me deixou reparar em mais nada. Meus olhos não se mexiam, minha cabeça não virava para lado algum, minha atenção estava presa naquele belo par de pernas.
      Ela reparou que eu a olhava e se pôs de lado, sensual, como se quisesse que eu a olhasse. Não sou (e nem precisava ser) um Don Juan para perceber que aquela mulher me queria, e não era como amigo; ela não me queria bem, ela me queria na cama. Creio que pude até sentir a libido que ela exalava, como se fosse um perfume que tivesse usado. Ela me olhou nos olhos, respondi e fiquei encarando.
      Tudo que posso dizer ter visto nos olhos dela era luxúria. Todas as formas que sua boca assumiam expressavam desejo. Religiosos cafonas diriam que ela era "o pecado em pessoa"; hipócritas, estariam com tesão, isso sim. Essa força pertencente a todos, homens, animais ou ambos, algo tão animal e irracional que eles não aceitam, criticam, repudiam, se iludem, mascaram, escondem como tabu, mas sentem. Sentem muito tesão.

Eu? Eu assumo este meu lado bicho. Tarado? Papo furado, o que não sou é hipócrita. Não gasto tempo escondendo o que não há como evitar. Neste caso, incentivado seria a palavra mais certa.

      Ela virou o rosto, não para tentar disfarçar o inevitável, mas para fazer charme. Assim percebi quando, de rosto virado, deu um dos sorrisos mais safados que eu já tinha visto. Sim, safado. Não há palavra no Aurélio que descreva melhor aquele sorriso; ela mordiscou o lábio e tive de fazer um esforço enorme para não me contorcer, me segurando na frigidez da calça jeans. Aos poucos eu ia perdendo meu autocontrole.
      Reparei que a minissaia subiu 5mm. Envolvendo aquela mulher, qualquer alteração era perceptível como um terremoto de 8 graus na Escala Richter e toda alteração tinha o único intuito de me provocar, de me deixar mais louco do que já estava. Pensei em seduzí-la mas era inútil. Ela já tinha me seduzido a tempos. Fiquei parado e mudo, que nem um babaca, enquanto ela me envolvia com todo gesto, qualquer respirar que fosse, uma sereia, como Odisseu enfrentou.
      Lá vai ela... Mexe no cabelo, me mostrando a nuca. Pude sentir o gosto da sua pele enquanto meu sangue entrava em ebulição. E quando a mão dela caiu "acidentalmente" na minha coxa, perdi de vez qualquer controle que eu tinha. Eu não pensava mais, só sentia.
      Na primeira olhada dela eu ataquei, fui direto nos lábios. Ela recebeu meu fogo com gasolina. O que era uma chama virou uma labareda solar. Minha mão explorava suas pernas enquanto a kombi fazia uma curva fechada; meu corpo caiu em cima do dela. Pude sentir sua pele macia e o seu corpo colado no meu. De olhos fechados meu sentido proncipal era o tato. Lábios de ninfa, cabelos de musa, corpo de Vênus. Não escutava nada, não sentia cheiro algum. Eu sentia a textura do seu peito com a minha mão esquerda; o gosto do seu pescoço com a minha língua; a mão esquerda dela na minha virilha. Estávamos num limbo espaço-temporal, regido pela energia sexual que nos envolvia.
      Não me lembrava mais aonde estava, me sentia num quarto de motel. De repente, ela virou o rosto. Estranhei mas pensei que ela queria que a mordesse em outro lugar. De olhos fechados ainda pude escutar alguém dizer "pára ali na frente por favor". A mão esquerda dela sumiu junto com o seu pescoço. A kombi parou, ela saltou e eu segui ela com o olhar, continuando meu caminho pra casa e pensando se aquilo aconteceu mesmo...

terça-feira, 19 de abril de 2011

Os primeiros textos recuperados - Quasiventuras de um rapaz de 19 anos

Texto 1 - O uniforme

      Ele entrou no ônibus, fila. Parou na roleta, deu o vale pro trocador, esperou a roleta ser liberada por aquela máquina infernal, leu "passe" e viu a luz verde acender quando passou para o outro lado.
      Lugares todos ocupados? Quase. Tinha uns dois lugares vazios, mas eram meio escrotos; os lugares eram intercalados com lugares ocupados por três homens, grandes e, ainda por cima, suados; no fundo, última fileira, péssimos lugares.
      Sendo assim, ele ficou em pé mesmo, quase ao lado de uma menina bonitinha que ele avistara pouco antes de passar na roleta. Por esta questão puramente estética, lá ele ficou, em pé.
      A alguns dias o rapaz chegara a conclusão de que nem o acaso nem a aleatoriedade existiam. Mas deixamos o embasamento filosófico/metafísico da questão pra lá e voltemos ao rapaz, que não resistiu e soltou um leve sorriso de satisfação quando a mulher que estava no mesmobanco da Menina se levantou para saltar do ônibus. Ele não deu nem tempo para os outros passageiros que estavam em pé perceberem que havia um lugar vago. Zás! Rindo com sua onomatopéia mental, ele senta do lado da estudante do Colégio Pedro Segundo, vulgo CP2.
      Ele aprendera a reconhecer aquele uniforme com alguns amigos que lá estudavam; a camisa de abotoar branca, a saia de prego que vai até o joelho e o escudo no peito que a revelou ser do primeiro ano do Ensino Médio. Ele adorava o uniforme e tinha um carinho especial pelas saias.
      Ele olhou seu relógio. "Tarde já, ela deve estudar de noite". Pensou no trajeto que o ônibus fazia e deduziu que ela só podia estudar na Unidade Humaitá. "Hum, será que ela conhece a... Não, ela é nova demais" e descartou a possibilidade de terem amigos em comum.
      O Rapaz não sabia muito da Menina, mas sentiu que ela dera um tímido sorriso quando ele se aproximou e ficara um pouco nervosa, com as mãos tremendo levemente desde que ele se sentou ao seu lado. Os instintos dele, ou talvez seu egocentrismo mesmo, o deram a certeza de que ela se interessara por ele. Mesmo que não fosse uma paixão arrebatadora, era uma atração daquelas que aceleram seu coração, fazem suas mãos suarem frio e te impossibilitam de ser devidamente articulado na presença da pessoa em questão.
      Pois bem, lá estava ele a observá-la na busca de algo que servisse de assunto inicial. De súbito a Menina botou óculos, ele deu uma risada interna - óculos de pseudo-intelectual retangular de aro grosso. Achou aquilo uma ironia e um tanto engraçado, mas deixou pra lá. Logo depois ela tirou "O triste fim de policarpo quaresma" da mochila, provavelmente exigido pelo colégio. "Tanto faz" pensou e logo formou uma opinião sobre o livro, que por sinal não lera. Baseou-se em outros contos do Lima Barreto que lera três anos antes e decidiu que Policarpo Quaresma era o máximo!

- Está gostando do livro?
- Que?
Insistiu.
- Está gostando do livro?

Na verdade. a resposta dela não fazia diferença. Se ela dissesse que estava, ele concordaria, exaltando o autor, a história e puxaria logo o papo de que "Policarpo é que era um verdadeiro nacionalista!" ou algo tão apaixonadamente entusiasmado quanto.

Se dissesse que não, ele perguntaria se era pro colégio e diria algo como "Só o fato do colégio obrigar a ler já torna ele um saco, bom mesmo é a gente poder escolher" e daí puxaria outro assunto mais envolvente.

Ele sabia que esta tática era um tanto arriscada, já que podia ser pego falando algumas toneladas de abobrinha, mas funcionava dia sim, dia não e "sei lá" foi a primeira coisa que passou pela cabeça dele.

      Assim ele fez e os assuntos foram puxando uns aos outros. Falaram de livros, colégio, vida, besteiras, tudo, nada, cinema, sobre ambos. Conversaram por um tempo que nenhum dos dois contou e, no primeiro silêncio de ambos, olharam-se nos olhos e aconteceu. Nenhum dos dois soube quem começou nem se importaram com isso.
      As bocas entreabertas se tocaram, os olhos fechados, ambas as respirações mais suaves. A algazarra do trânsito que os cercava se tornou um silencioso murmurinho, um som de fundo pra música que começava a tocar. O tempo parecia desacelerado, como se tivesse dado tempo a si mesmo.
      Lentamente, ambos começaram a perder a cor, tons de verde, azul, amarelo, vermelho e marrom se tornaram tons de cinza. O cabelo solto da Menina tomou a forma de um discreto, mas elegante penteado. A jaqueta dele virou um sobretudo com chapéu cobrindo sua cabeça. Não se via além do beijo, em close. Cena de filme clássico dos Anos 50.
      Ele só não conseguia lembrar o nome do filme de jeito nenhum. Nome do filme, filme, cinema, ponto de ônibus! Ele parou de beijá-la e olhou pela janela.´

- É o meu ponto!

Ela o olhou nos olhos e não disse nada, voltando a ler. O Rapaz se levantou, saltou do ônibus, viu a Menina passar e foi ver um filme de amor oriental.

Uma pausa na poesia

Acho que está na hora de dar uma pausa nas poesias e voltar ao que era a questão principal do blog, fazer uma busca por textos perdidos na vida ou na internet e trazê-los de volta.

até a volta

segunda-feira, 4 de abril de 2011

trabalho

Para relaxar
frio tem suas vantagens
um banho fervente

domingo, 3 de abril de 2011

Ela diz que eu não falo mais eu te amo
ela está certa
de quando em vez eu escrevo
faz tempo que não falo
não sinto a necessidade de falar

eu te amo

falar isso requer mais que vontade
é preciso um impulso que vem do peito
que sai involuntário sem que eu possa segurá-lo
como um reflexo motor
ou um refluxo

Mas esse impulso não vem
tento puxar do peito
não há folego que lhe dê força
quando não há por que dizer

Eu te amo

mas agora não

Me diz se gosta

escuto sua voz
e respiro seu cheiro
entra pelo nariz
a memória da noite/manhã que curtimos
juntos
meus braços, seus braços
meu corpo, seu corpo
minha mão nas suas pernas
minha boca no seu pescoço
suas unhas nas minhas costas
e seu gemido...
você dizia que eu te deixava louca
mas quem estava louco era eu
embriagado
com o seu gosto
teu calor
e seu cheiro
que me faz reviver tudo isso
enlouquecendo mais e mais
a cada dia sem você aqui

terça-feira, 15 de março de 2011

pulso

ela me disse
"a vida não é um mar de rosas"
é verdade
nem tudo são flores
estrelas chuva lua sorrisos
o amor é como a rosa
vermelha como sangue
é visceral e sujo
roxo
como as marcas deixadas pelo corpo
momentos de prazer ódio carinho desespero

amor bonito e imaculado
é o que nunca foi vivido
sem alma
como um comercial de tv
o amor real deixa marcas
queimaduras cortes ossos quebrados
estória de casal se conta pelos desamores

minhas paixões prefiro intensas
como um caminhão em alta velocidade
quando perde o controle
arrasa tudo que estiver no caminho
pega fogo
explode em mim.
O que deu na gente?
Uma cegueira estranha,
falta de tato.

A gente não quis ver,
nem ouvir nem sentir.
Não queríamos saber.

Só queríamos o gosto do nosso beijo,
o calor do nosso abraço
e o cheiro dos nossos corpos suados.

Mas a dor, isso sentíamos.
A pontada nos acordava do sonho,
nosso retrato de Dorian Gray.

Nossos olhos estavam inchados de choro,
nos nossos sorrisos faltavam dentes
e nosso abraço nos paralisava de dor.

A gente não se pertencia.
Sabíamos, não sabíamos,
nos queríamos como queríamos que o outro fosse.

Tem uma hora em que a mentira se esgota.
Já estavamos exaustos, desfizemos tudo.
No entanto, a mentira é tentadora, como nossa mais doce lembrança.

eu era o herói...

Não tem vilão.
Não tem mocinho.
A culpa não é de ninguém.
Não é bom,
é estranho.
Difícil.
Acabou, simples assim...
Não é simples.
É dor no peito,
uma faca cravada, sem dono.
Um fantasma
que nos fere sem sabermos onde está.
No fim
nos resta o sangue
e um buraco fundo,
cheio de estilhaços cortantes
de coração.

domingo, 13 de março de 2011

memória

Olho para a noite
e as estrelas
brilham como seus olhos
a Lua
é o seu sorriso
e a escuridão
que tudo envolve
é como seus cabelos

fecho os olhos
quase consigo beijá-la
me deixo cair em teus braços
ficamos com os rostos colados
deitados
e escutamos um som

então percebo as nuvens
chove
as gotas já molham minha roupa
tento secá-las
molham o papel

encharcado
não quero ir embora
tremendo
espero o dia em que a chuva pare
o céu abra
e eu volte a ver seu rosto

sexta-feira, 11 de março de 2011

olhos teus

Há vezes que não resistimos,
vemos,
nos ferimos.
Mas no fim de tudo,
o que temos,
senão o que sentimos?

terça-feira, 1 de março de 2011

meio cheio ou meio vazio

não adianta me enganar
fingir que não tenho sede
o copo está vazio

não adianta secar lágrimas
engolir o choro
tentar pensar que a história não importa

ainda importa
ainda semeia tempestades
rotineiras como briga de casal

mas que venha a chuva!
os olhos mareados
a dor no peito
berro com o Trovão!
vivo a tempestade

já tentei evitar
o raio corta meu peito
mas sem isso
o copo continua vazio
assim como eu

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Eu e você

E agora?
E os fins de semana?
E os telefonemas?
E as conversas?
E as bronquinhas?
E a sua voz,
como fica?
Os nossos planos?
As nossas promessas?
A nossa estória?
A nossa vida juntos?
Não tem?
Nem seus olhos?
Nem seu olhar?
Nem sua risada?
Nem seus sorrisos?
Seus abraços, seus braços

Éramos um só
Acabou.
Viramos passado,
perfeito e imperfeito,
exatamente como nós.
Te amei
Te amava
Ainda te amo

Sol

Como eu,
a Lua míngua
porque o sol, que ama tanto,
foge,
fazendo com que ela se sinta
vazia
sem luz.
Aos poucos ele volta
e a Lua
recupera seu brilho.
Quando te tenho comigo,
brilho como a Lua Cheia.
Amor
Fúria ódio cíume
escroto odeio
arrependimento
volta no tempo
angústia
transtorno
obsessivo
compulsivo
Ridículo

Burro

ciúme ciúme ciúme ciúme ciúme ciúme ciúme ciúme ciúme ciúme

abuso
raiva angústia
frustração

quando sentimos algo muito intenso não temos a menor idéia do que ele seja nem como lidar com aquilo que nos rasga o peito.

Escuro

E eu voltava pra casa
contando passos pra não chegar
e cada carro que eu ouvia,
imaginava que era ela que estava voltando.
Mas ela se foi
e a noite, sem estrelas,
ficou ainda mais triste.