Texto 2 - Lotação
Estava eu na lotação, por sinal, lotada. Era um fim de noite comum, estava voltando de não sei onde e estava meio cansado. A pessoa ao meu lado era nada atraente; era um cara, mal encarado, feio e com uma cara nada intelectual. A única coisa boa dele foi que ele saltou logo. Já a mulher que entrou no seu lugar...
Assim que ela entrou comecei a inspeção: rosto mais ou menos, cara meio de turista, camiseta sem graça, minissaia jeans e um par de coxas que não me deixou reparar em mais nada. Meus olhos não se mexiam, minha cabeça não virava para lado algum, minha atenção estava presa naquele belo par de pernas.
Ela reparou que eu a olhava e se pôs de lado, sensual, como se quisesse que eu a olhasse. Não sou (e nem precisava ser) um Don Juan para perceber que aquela mulher me queria, e não era como amigo; ela não me queria bem, ela me queria na cama. Creio que pude até sentir a libido que ela exalava, como se fosse um perfume que tivesse usado. Ela me olhou nos olhos, respondi e fiquei encarando.
Tudo que posso dizer ter visto nos olhos dela era luxúria. Todas as formas que sua boca assumiam expressavam desejo. Religiosos cafonas diriam que ela era "o pecado em pessoa"; hipócritas, estariam com tesão, isso sim. Essa força pertencente a todos, homens, animais ou ambos, algo tão animal e irracional que eles não aceitam, criticam, repudiam, se iludem, mascaram, escondem como tabu, mas sentem. Sentem muito tesão.
Eu? Eu assumo este meu lado bicho. Tarado? Papo furado, o que não sou é hipócrita. Não gasto tempo escondendo o que não há como evitar. Neste caso, incentivado seria a palavra mais certa.
Ela virou o rosto, não para tentar disfarçar o inevitável, mas para fazer charme. Assim percebi quando, de rosto virado, deu um dos sorrisos mais safados que eu já tinha visto. Sim, safado. Não há palavra no Aurélio que descreva melhor aquele sorriso; ela mordiscou o lábio e tive de fazer um esforço enorme para não me contorcer, me segurando na frigidez da calça jeans. Aos poucos eu ia perdendo meu autocontrole.
Reparei que a minissaia subiu 5mm. Envolvendo aquela mulher, qualquer alteração era perceptível como um terremoto de 8 graus na Escala Richter e toda alteração tinha o único intuito de me provocar, de me deixar mais louco do que já estava. Pensei em seduzí-la mas era inútil. Ela já tinha me seduzido a tempos. Fiquei parado e mudo, que nem um babaca, enquanto ela me envolvia com todo gesto, qualquer respirar que fosse, uma sereia, como Odisseu enfrentou.
Lá vai ela... Mexe no cabelo, me mostrando a nuca. Pude sentir o gosto da sua pele enquanto meu sangue entrava em ebulição. E quando a mão dela caiu "acidentalmente" na minha coxa, perdi de vez qualquer controle que eu tinha. Eu não pensava mais, só sentia.
Na primeira olhada dela eu ataquei, fui direto nos lábios. Ela recebeu meu fogo com gasolina. O que era uma chama virou uma labareda solar. Minha mão explorava suas pernas enquanto a kombi fazia uma curva fechada; meu corpo caiu em cima do dela. Pude sentir sua pele macia e o seu corpo colado no meu. De olhos fechados meu sentido proncipal era o tato. Lábios de ninfa, cabelos de musa, corpo de Vênus. Não escutava nada, não sentia cheiro algum. Eu sentia a textura do seu peito com a minha mão esquerda; o gosto do seu pescoço com a minha língua; a mão esquerda dela na minha virilha. Estávamos num limbo espaço-temporal, regido pela energia sexual que nos envolvia.
Não me lembrava mais aonde estava, me sentia num quarto de motel. De repente, ela virou o rosto. Estranhei mas pensei que ela queria que a mordesse em outro lugar. De olhos fechados ainda pude escutar alguém dizer "pára ali na frente por favor". A mão esquerda dela sumiu junto com o seu pescoço. A kombi parou, ela saltou e eu segui ela com o olhar, continuando meu caminho pra casa e pensando se aquilo aconteceu mesmo...
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