Quando cheguei no ponto de ônibus, fiz logo o reconhecimento da área; Apesarde de ser noite tinha basante gente, ao menos para aquele ponto em questão. As primeiras olhadas não revelaram nada de mais, algumas pessoas feias... Foi quando a vi.
Começou pelo cabelo, que me enlaçava com seus mil caracóis, passando pela nuca, pela camisa - exatamente o tipo que eu gostava - de malha sem mangas, seguia pelos ombros e braços, numa mescla de pele morena, sardas e pintas. Uma combinação arrematadora. Desci seguindo o short curto, as pernas, culminando na dupla que sempre me atraiu: meia curtinha e tênis.
Enquanto eu já babava por ela, a Moça olhava pro outro lado, esperando seu ônibus chegar. Tentei adivinhar para onde iria, observando os que ela deixava passar. Tentei também enxergar o seu rosto, ao menos um perfil que fosse. Nada. Ela olhava apenas para a rua ao longe, me negando ver seu rosto, na espera da condução.
Em vão, esperei o momento em que ela se distraísse e me revelasse seu rosto. Vários ônibus que me serviam passaram, pararam, pegaram e deixaram passageiros; eu não estava nem aí para eles, não enxergava nem as pessoas nem o ponto de ônibus, só enxergava a Moça do cabelo encaracolado.
Ela se sentou no banco do ponto, mas mesmo assim não mexeu a cabeça. Aquilo continuava uma incognita, um mistério que não nos deixa dormir. Como um livro de suspense eu tentava desvendá-la; imaginei todos os rostos possíveis para ela. Bonita, velha, nova, conservada, cansada, enrugada, espinhenta; olhos azuis, olhos castanhos, verdes, mel, pretos; sombrancelhas grossas, finas, juntas, feitas, mal-feitas; sem bochecha, sem graça, sem sal, sem queixo, sem defeito...
Chega!
Não aguentei mais me atormentar com aquilo. Fui decidido até onde ela estava sentada. Não ficaria sem saber como era seu rosto por mais tempo algum. Mas na minha decisão repentina, eu não tinha pensado em nada para dizer a ela e enquanto dava os passos necessários para me aproximar, nada veio a minha cabeça.
Dane-se. Eu me viro.
Parei na frente dela e fiquei a olhar ela subir a cabeça até me olhar nos olhos. Deve ter levado um segundo, mas senti varios minutos passando. E foi pior que eu imaginei. Ela não era bonita, não mesmo. O que ela tinha era uma beleza diferente, mais que exótica; era absolutamente linda, uma beleza que só quem é mortal pode ter, que causa inveja a deusas, gregas, romanas e egípcias. Que me fez esquecer de onde eu estava. Me senti em qualquer lugar, em lugar nenhum, no limbo, no olimpo, campos elísios, Saturno. Culpado, eu cometia o crime de olhar uma Deusa nos olhos, olhos de ressaca.
Nada veio a minha cabeça, nenhum pensamento, nenhuma palavra, rien, rien de rien. Virei. Vi um ônibus qualquer e fiz sinal. Ele parou e fui entrando até me puxarem pelo ombro.
Espera.
Subitamente me perdi. Um cientista poeta diria, talvez, que eu estava mergulhado num mar de ondas alfa. Ainda não sei bem o que passou, só recuperei a consciência algum tempo depois, com um leve gosto de néctar na boca e nos meus lábios. Mais tarde deduzi que ela tinha me dado um beijo e que isso tinha causado essa sensação. Quanto tempo fiquei em extase é incerto pra mim. Dias, semanas, meio segundo, 2 anos. O ônibus continuava ali.
Pronto, agora você pode ir.
E voltou pra mesma posição de logo antes, sentada, sem nem mostrar seu perfil.
Ainda grogue, subi naquele onibus errado, que fechou a porta e arrancou. Quando acordei, já não conseguia mais ver nem o ponto nem a moça. Paguei, passei, sentei, ignorando o trajeto estranho que eu fazia. Só me vinha na cabeça aquela