Texto 1 - O uniforme
Ele entrou no ônibus, fila. Parou na roleta, deu o vale pro trocador, esperou a roleta ser liberada por aquela máquina infernal, leu "passe" e viu a luz verde acender quando passou para o outro lado.
Lugares todos ocupados? Quase. Tinha uns dois lugares vazios, mas eram meio escrotos; os lugares eram intercalados com lugares ocupados por três homens, grandes e, ainda por cima, suados; no fundo, última fileira, péssimos lugares.
Sendo assim, ele ficou em pé mesmo, quase ao lado de uma menina bonitinha que ele avistara pouco antes de passar na roleta. Por esta questão puramente estética, lá ele ficou, em pé.
A alguns dias o rapaz chegara a conclusão de que nem o acaso nem a aleatoriedade existiam. Mas deixamos o embasamento filosófico/metafísico da questão pra lá e voltemos ao rapaz, que não resistiu e soltou um leve sorriso de satisfação quando a mulher que estava no mesmobanco da Menina se levantou para saltar do ônibus. Ele não deu nem tempo para os outros passageiros que estavam em pé perceberem que havia um lugar vago. Zás! Rindo com sua onomatopéia mental, ele senta do lado da estudante do Colégio Pedro Segundo, vulgo CP2.
Ele aprendera a reconhecer aquele uniforme com alguns amigos que lá estudavam; a camisa de abotoar branca, a saia de prego que vai até o joelho e o escudo no peito que a revelou ser do primeiro ano do Ensino Médio. Ele adorava o uniforme e tinha um carinho especial pelas saias.
Ele olhou seu relógio. "Tarde já, ela deve estudar de noite". Pensou no trajeto que o ônibus fazia e deduziu que ela só podia estudar na Unidade Humaitá. "Hum, será que ela conhece a... Não, ela é nova demais" e descartou a possibilidade de terem amigos em comum.
O Rapaz não sabia muito da Menina, mas sentiu que ela dera um tímido sorriso quando ele se aproximou e ficara um pouco nervosa, com as mãos tremendo levemente desde que ele se sentou ao seu lado. Os instintos dele, ou talvez seu egocentrismo mesmo, o deram a certeza de que ela se interessara por ele. Mesmo que não fosse uma paixão arrebatadora, era uma atração daquelas que aceleram seu coração, fazem suas mãos suarem frio e te impossibilitam de ser devidamente articulado na presença da pessoa em questão.
Pois bem, lá estava ele a observá-la na busca de algo que servisse de assunto inicial. De súbito a Menina botou óculos, ele deu uma risada interna - óculos de pseudo-intelectual retangular de aro grosso. Achou aquilo uma ironia e um tanto engraçado, mas deixou pra lá. Logo depois ela tirou "O triste fim de policarpo quaresma" da mochila, provavelmente exigido pelo colégio. "Tanto faz" pensou e logo formou uma opinião sobre o livro, que por sinal não lera. Baseou-se em outros contos do Lima Barreto que lera três anos antes e decidiu que Policarpo Quaresma era o máximo!
- Está gostando do livro?
- Que?
Insistiu.
- Está gostando do livro?
Na verdade. a resposta dela não fazia diferença. Se ela dissesse que estava, ele concordaria, exaltando o autor, a história e puxaria logo o papo de que "Policarpo é que era um verdadeiro nacionalista!" ou algo tão apaixonadamente entusiasmado quanto.
Se dissesse que não, ele perguntaria se era pro colégio e diria algo como "Só o fato do colégio obrigar a ler já torna ele um saco, bom mesmo é a gente poder escolher" e daí puxaria outro assunto mais envolvente.
Ele sabia que esta tática era um tanto arriscada, já que podia ser pego falando algumas toneladas de abobrinha, mas funcionava dia sim, dia não e "sei lá" foi a primeira coisa que passou pela cabeça dele.
Assim ele fez e os assuntos foram puxando uns aos outros. Falaram de livros, colégio, vida, besteiras, tudo, nada, cinema, sobre ambos. Conversaram por um tempo que nenhum dos dois contou e, no primeiro silêncio de ambos, olharam-se nos olhos e aconteceu. Nenhum dos dois soube quem começou nem se importaram com isso.
As bocas entreabertas se tocaram, os olhos fechados, ambas as respirações mais suaves. A algazarra do trânsito que os cercava se tornou um silencioso murmurinho, um som de fundo pra música que começava a tocar. O tempo parecia desacelerado, como se tivesse dado tempo a si mesmo.
Lentamente, ambos começaram a perder a cor, tons de verde, azul, amarelo, vermelho e marrom se tornaram tons de cinza. O cabelo solto da Menina tomou a forma de um discreto, mas elegante penteado. A jaqueta dele virou um sobretudo com chapéu cobrindo sua cabeça. Não se via além do beijo, em close. Cena de filme clássico dos Anos 50.
Ele só não conseguia lembrar o nome do filme de jeito nenhum. Nome do filme, filme, cinema, ponto de ônibus! Ele parou de beijá-la e olhou pela janela.´
- É o meu ponto!
Ela o olhou nos olhos e não disse nada, voltando a ler. O Rapaz se levantou, saltou do ônibus, viu a Menina passar e foi ver um filme de amor oriental.
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Um comentário:
Eu acho que vc deveria se dedicar mais à prosa que à poesia. Gostei muito, Lucas.
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