terça-feira, 3 de maio de 2011

Os textos perdidos - Cheiros

      Dizem que quando chegaram no Brasil, os portugueses se maravilharam com as belezas naturais, com as belezas nativo-americanas, com as cores, a temperatura e com os cheiros.
      O cheiro de uma fruta, o cheiro de uma flor, o cheiro de um perfuma, masculino ou feminino, que os europeus tão bem confeccionam e tão sabiamente usam para esconder seu fedor cheiro natural. O cheiro de uma loção, de um sabonete, de um shampoo. O cheiro de alguém cheiros@, que passa, nos dominando com uma vontade irresistível de acompanhar o cheiro e pessoa em questão.

Os cheiros. Eles me remetem a lugares, a tempos de vida passados, a músicas, sentimentos, pessoas.

      Apesar dos rotineiros enguiços olfativos, hoje no ônibus senti um cheiro familiar. Era um cheiro muito antigo, não sabia bem de onde. Pus os funcionários do Departamento de Memória (DdM) para funcionar e as informações foram surgindo devagar quase parando. Funcionalismo público é assim mesmo. Mas apareceram algumas coisas interessantes:

1o. - O cheiro vinha da mulher que estava ao meu lado
2o. - É um shampoo

      Lentamente as informações foram se montando. Aquele cheiro era o shampoo que uma das minhas muitas paixões juvenis usava. Não consigui descobrir nem quem era a paixão e nem quando ocorreu. Sabia apenas que era do elséve para cabelos longos e que essa fragrância me faz viajar de volta a uma vida, um tempo que não existe mais.
      E assim fiquei, mergulhado naquele cheiro de outros tempos, até chegar no meu ponto, quando voltei ao presente, puxei a cigarra e saí, minha rotina de todos os dias, como se nada tivesse acontecido.

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